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O Teatro da Política

19 de Maio de 2015
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João Batista Ericeira é professor Universitário e Diretor Núcleo de Ciências Políticas do CECGP.


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Era uma manhã de sol de dezembro de 1968, no Rio de Janeiro, as praias de Copacabana e Ipanema regurgitavam, lotadas pela juventude dourada que curtia o “Pasquim”, e as canções de protesto contra a ditadura, que no dia 13 daquele mês, tirara por completo a máscara, decretando o Ato Institucional nº 5. Os adversários do regime presos, dentre eles, Carlos Lacerda. O ex-governador do então Estado da Guanabara, conspirara para a derrubada pelo golpe militar do seu adversário Jango Goulart da Presidência da República. Com as eleições diretas para a Presidência canceladas, tentou no ano anterior recompor-se com Juscelino Kubitschek e o próprio Jango, no movimento designado “Frente Ampla”.

Costa e Silva, e o seu ministro da Justiça puseram a “Frente Ampla” na ilegalidade, prenderam os seus líderes, entre eles, o nosso conterrâneo Renato Archer, que me relatou o episódio: Lacerda estava preso na unidade da Polícia Militar na Frei Caneca. Lá também ficara o jornalista Hélio Fernandes, para quem passara o seu jornal “Tribuna da Imprensa”. Depois de dias encarcerado, Lacerda tomou a decisão de fazer greve de fome, com riscos para a saúde e a vida, objetivando chamar a atenção para o arbítrio a que estava sendo submetido, e provocar movimento de resistência na opinião pública. Sua filha Cristina dirigiu documento às autoridades protestando, e dizendo do risco que corria o pai, anexando laudos médicos.

Os dias se passavam, e nada dos algozes da ditadura se sensibilizarem com a situação do seu antigo líder. Hélio Fernandes, seu amigo, o alertara da inutilidade do gesto. Até que naquele domingo de sol, com as praias do Rio lotadas, e um Fla-Flu anunciado, recebeu a visita do irmão Maurício, que lhe fez a seguinte advertência: “Carlos, para como essa greve de fome, o mundo aí fora a ignora. Você está encenando Shakespeare no país da Dercy Gonçalves”.

Para os mais jovens, Dercy Gonçalves era uma talentosa e desbocada comediante, vezeira na utilização de palavrões, protagonista das chanchadas do cinema nacional. A sua comparação com o dramaturgo inglês, clássico do teatro mundial, servia para evidenciar as ligações entre a dramaturgia e a política. E também para constatar de que a nossa política se distanciava da polidez dos clássicos, revelando-se na prática, como a arte bruta de manter o poder a qualquer preço.

Os gregos, cinco séculos antes de Cristo, sabiam das íntimas relações entre o teatro e a política, como se vê nas peças de Sófocles “Édipo Rei”, “Electra”, “Antígona”, retomadas por William Shakespeare (1564-1616), na era elisabetana, na Inglaterra, em textos como “Rei Lear”, “Júlio Cesar”, “Hamlet”, “Macbeth”, clássicos da arte cênica universal.

O teatro e a política interagem, os políticos são também atores e os seus discursos e ações são como roteiros interpretados para o público, que os elege, os acompanha, aplaudindo ou apupando. Tudo começou na Grécia clássica onde nasceram juntas, a democracia, a filosofia e a dramaturgia.

A plateia, segundo o dramaturgo inglês David Hare, exige dos atores políticos a verdade no ato de interpretar, o que segundo ele, falta aos representantes dos conservadores e trabalhistas na atualidade da Inglaterra, que pecam pelo artificialismo, e por não falarem a verdade sobre coisa alguma.  Ambos os lados se entregaram aos “donos do mercado”, fingindo representar a sociedade, eles não fazem mais nada. Previsto para comparecer a “Festa Literária de Paraty”, em julho próximo, promete aprofundar-se ainda mais sobre o tema. Inquirido sobre as causas do desprezo dos brasileiros pelos políticos, ele atribui às mesmas razões dos ingleses. E concluí, há a sensação de que eles não representam a democracia.

À luz das reflexões de Hare, avalio que os textos da política brasileira serão refeitos, os atores, por sua vez, mudarão as formas de atuar, sob pena de substituição. A verdade e a transparência são atualmente exigências universais da plateia. Mas é certo, enquanto houver vida, haverá o teatro da política, aqui, e no restante do planeta.

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