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A Raça Humana

03 de Julho de 2015
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João Batista Ericeira é professor Universitário e Diretor Núcleo de Ciências Políticas do CECGP.


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Quanto mais se fala em Direitos Humanos, maior é o seu descumprimento e as infrações que lhe correspondem. Os episódios de racismo são vergonhosos, constrangedores, ferem a consciência jurídica internacional. A opinião pública chocou-se recentemente com a chacina da Carolina do Sul. Em Charleston, o celerado Dylann Roof fuzilou nove membros da Congregação Evangélica, incluindo o pastor, pelo fato de serem negros. Após a prisão o genocida explicou-se: “os negros estão estuprando nossas mulheres e tomando o nosso país”.

Se fosse na América Latina, nos países pobres, logo a mídia alardearia a falta de democracia e o atraso cultural. Mas nos Estados Unidos, quais a explicações para a tragédia do massacre a inocentes, determinado pela sua condição racial, com suposições que recebem a acolhida até de candidatos apresentados a próxima corrida presidencial, onde já despontam o filho e irmão de Presidente da República, o ex-governador do Estado da Flórida, Jeb Bush. E a esposa de Bill Clinton, Hillary. Tivesse a tragédia ocorrido por estas paragens do Terceiro Mundo, nas chamadas “repúblicas de bananas”, logo a mídia trombetearia o atraso e a eternização das oligarquias. Mas como é na pátria de democracia, faz-se o silêncio omissivo.

Não por acaso, a primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle, e o seu marido Obama, vêm chamando a atenção para o recrudescimento do racismo, repetindo-se as situações violentas praticadas por agentes policiais do Estado nas pessoas de vítimas atingidas pela sua condição racial. A Carolina do Sul é o paraíso do racismo, a bandeira confederada da Guerra da Secessão, dos partidários da segregação, ainda hoje é exibida em lugares públicas, fomentando o ódio, sob o beneplácito das autoridades locais.

Apresentar o assassino Dylann Roof como psicopata é muito pouco, na verdade, trata-se de herdeiro de tradições que incluem grupos de extermínio como a Ku Klux Klan, defensores da supremacia branca, com fanatismo parecido ao dos nazistas de Hitler, responsáveis pelo Holocausto judaico da Segunda Guerra Mundial.  O genocídio é crime hediondo que infelizmente se repete em escala mundial.

A maioria dos presos, aqui e nos Estados Unidos, são negros e pobres. Os habitantes dos presídios, os imigrantes, são vítimas da intolerância racial, grave infração aos Direitos Humanos, inconcebível em países que se dizem democratas, embora persistam nas práticas opostas. A Carolina do Sul, pela composição da população majoritariamente branca, é reduto do racismo desde os anos sessenta do século passado, quando se iniciaram as políticas de integração dos governos Kennedy e Johnson, acionados pelas marchas de integração comandadas pelo pastor Martin Luther King.

Infelizmente, o sonho de Luther King não se realizou em plenitude, nem nos Estados Unidos, nem entre nós. É certo que não tivemos a segregação no modelo norte-americano e sul-africano, mas daí a dizer que somos o paradigma de democracia racial, não corresponde à realidade dos fatos. Basta ver o número de congressistas, de professores, de governadores, de juízes, de oficiais das Forças Armadas de origem africana e indígena.

Recordo uma canção dos anos setenta, composta e interpretada por Wilson Simonal, que em certo trecho dizia: “se sou negro de cor, meu irmão de minha cor, luta mais que a luta está no fim”. Parece que essa luta não tem fim, o ativista pelos Direitos Humanos, o escritor e dramaturgo chileno-americano Ariel Dorfman, no texto “Alice no país da Esquerda” faz das suas as nossas palavras: “Nós, que desejamos um mundo diferente, sabemos que não desejamos parar quando chegamos ao fim: sabemos que não há fim possível para o desejo de justiça, que os rebeldes nunca desaparecem totalmente como uma vela”.

Simonal, ele próprio vítima do racismo, tem agora a sua vida celebrada em um musical no teatro em São Paulo. Em outro trecho daquela canção, intitulada “Tributo a Martin Luther King” conclama: “se sou negro de cor, meu irmão de minha cor, o que te peço, é luta sim, luta mais, que a luta está no fim”. E conclui: “luta negra é demais, é lutar pela paz”.

Enquanto se repetirem genocídios como aquele brutal de Charleston, a democracia e a paz estão ameaçadas, afinal, como lembra o Papa na Encíclica “Louvado Sejas”, tudo está ligado a tudo, como aliás sustenta o budismo. Quando seremos todos irmãos?  Está cientificamente comprovado, só existe uma raça, a raça humana.

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