CECGP

Notícia

Centro de Estudos Constitucionais e de Gestão Pública

TODOS GRITAM E NINGUÉM TEM RAZÃO…por Sergio Tamer

A arrogância e o poder…

Sergio Tamer é professor e advogado, presidente do Centro de Estudos Constitucionais e de Gestão Pública – CECGP

 

          A carta inusitada e inusual endereçada pelo presidente americano ao seu homólogo brasileiro, possui consideráveis consequências econômicas e políticas para ambos os países o que fez recrudescer ainda mais o tom depreciativo com que Lula há algum tempo vem se referindo a Trump. Diferente do estilo sóbrio do líder chinês, ou do próprio russo, que agem mais do que falam, o que estamos vendo agora, de parte a parte, é uma mescla de arrogância, populismo e histrionismo. Essa teatralidade de dois líderes que buscam incessantemente ser o centro das atenções tem sempre um custo elevado para a população de seus países.

          Trump, por exemplo, logo no primeiro parágrafo de sua missiva, disse logo a que veio ao falar das injustiças que estão sendo cometidas ao seu cupincha brasileiro. Em seguida, refere-se aos “ataques insidiosos às eleições livres e ao fundamental direito à liberdade de expressão de norte-americanos” para acusar o STF de ter “emitido centenas de ordens de censura SECRETAS e ILEGAIS (assim mesmo, em letras maiúsculas), “contra plataformas de redes sociais norte-americanas, ameaçando-as com multas de milhões de dólares) […]

          A questão comercial ficou em segundo plano, com alegações inclusive absolutamente equivocadas, pois os EUA têm superavit na balança comercial com o Brasil. A retaliação, assim, tem um viés nitidamente político e partidário ao impor tarifas de 50% sobre qualquer e todo produto brasileiro enviado aos Estados Unidos. Com essa postura, e em defesa aberta e contundente ao nosso doidivanas tupiniquim, Trump estaria retribuindo à Lula a manifestação que este havia feito em favor de Kamala Harris, em meio a uma difícil e imprevisível eleição americana.

          O resultado dessa retórica provocativa, acompanhada de ações diplomáticas duvidosas, será sentido especialmente pela população de ambos os países. Aliás, o Brasil foi-se distanciando do seu segundo maior parceiro comercial com essas hostilidades desarrazoadas e sem qualquer proveito prático, muito pelo contrário. Agora, temos um grande problema pela frente, além de tantos outros com os quais já vínhamos nos debatendo no plano interno. No setor agropecuário, exportações de carne bovina, café e suco de laranja para os EUA somaram bilhões de dólares em 2024 e a retaliação americana pode tornar esses produtos menos competitivos. Na indústria de transformação, aeronaves, autopeças, máquinas e eletroeletrônicos são fortemente exportados para os EUA, e empresas como Embraer e WEG podem enfrentar perdas significativas. No que toca a petróleo e seus derivados, embora esse setor tenha mais flexibilidade logística, o impacto pode ser relevante, já que os EUA são o segundo maior destino do petróleo brasileiro, assim como são o segundo maior destino das vendas externas brasileiras. Dessa maneira, a tarifa de 50% pode provocar uma redução de bilhões de dólares na balança comercial e lançar ainda mais instabilidade no câmbio com a possível desvalorização do real.

          Outro tormento para a população de um modo geral é o eventual retorno da inflação e de juros ainda mais elevados, além do impacto no emprego e renda, já que as indústrias exportadoras podem reduzir a produção e promover demissões, o que afetaria diretamente o mercado de trabalho. Mas neste cenário de muita turbulência, o governo poderá mitigar esses efeitos perversos ao procurar diversificar os mercados junto a países da Ásia, Europa e América Latina, além de promover acordos bilaterais com a China, Índia, Alemanha e Argentina. Também se considera o incremento de incentivos fiscais para as empresas afetadas e o estímulo à inovação e agregação de valor, o que representaria menos commodities e mais tecnologia. Mas tudo isso poderia ser evitado se a síndrome de “húbris” não tivesse chegado a tanto. Esse conceito grego antigo, que denota orgulho excessivo e um senso inflado de autoestima, frequentemente leva os detentores de poder a acreditarem que são iguais aos deuses. O orgulho excessivo faz com que os líderes percam o senso de seus próprios limites. No contexto moderno, a síndrome de húbris, ou síndrome da arrogância, indica excesso de confiança, desprezo pela crítica e uma crença exagerada em sua própria importância e capacidade. A arrogância, geralmente, leva à ruína e por isso não é uma boa companheira.

          Não é hora, pois, de bravatas e de patriotadas, de arroubos e de gritarias, caso contrário, faremos companhia à maneira arrogante de ser de mister Trump e de seu parceiro brasileiro…