Sergio Tamer é professor e advogado, presidente do Centro de Estudos Constitucionais e de Gestão Pública – CECGP
Poucos países carregam, há tanto tempo, a promessa do porvir como o Brasil. Desde o célebre livro “Brasil, Um País do Futuro”, de Stefan Zweig, publicado em 1941, que consolidou-se entre nós uma visão quase mítica do país como potência adiada, uma nação destinada à grandeza, mas eternamente presa à condição de promessa. Zweig, judeu-austríaco, via no Brasil uma síntese rara de convivência multicultural, riqueza natural e potencial civilizatório. Em plena guerra mundial, enxergava aqui uma esperança para a humanidade.
Décadas depois, a pergunta permanece: o Brasil continua sendo o país do futuro ou o futuro cansou de esperar pelo Brasil? Esse é o ponto central do nosso paradoxo histórico, pois o “Brasil do futuro”, co
mo ideia, tornou-se quase uma narrativa de consolo. Sempre se diz que o país está a um passo do desenvolvimento, de uma reforma decisiva, de um salto institucional, de uma modernização definitiva. Mas o futuro, para se realizar, exige projeto, não apenas expectativa.
A título de ilustração, mostramos aqui que o Brasil, nas décadas de 1930, 1940 e 1950, já ostentava um PIB maior do que o da China. Na década de 1960, nós ampliamos essa vantagem e na década de 1970 o país ainda mantinha esta dianteira, especialmente durante o chamado “milagre brasileiro”. Assim, por cerca de 40 a 50 anos, o Brasil foi maior economicamnte que a China. Porém, a grande virada do gigante asiático teve início com Deng Xiaoping, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, quando passou a priorizar a eficiência econômica em detrimento da ideologia do atraso de Mao Tsé-Tung. Hoje, a China é a 2ª maior economia, aproximando-se cada vez mais dos EUA.
Devemos reconhecer que há uma diferença profunda entre o Brasil do futuro — uma utopia — e o futuro do Brasil — um problema político, econômico e civilizacional concreto. O primeiro, logo se vê, é sonho. O segundo, uma questão de escolha. É que ao longo do tempo, o país desperdiçou ciclos históricos extraordinários, mesmo possuindo recursos abundantes, tendo em vista a ausência de continuidade institucional. Dessa maneira, o futuro do Brasil depende menos de seu potencial natural e mais de sua capacidade de organizar inteligência coletiva. É sabido que nesta era da economia do conhecimento, nenhuma nação se torna grande apenas porque possui território vasto, minérios, água ou agronegócio poderoso. Grandezas materiais sem instituições produzem apenas riqueza instável. Basta citar aquí o exemplo do Japão, um país territorialmente pequeno mas de uma grandeza econômica e cultural notável, sendo o 4o maior PIB do mundo. O drama brasileiro é que convivemos com sinais contraditórios: somos potência agrícola partilhando espaço com uma terrível pobreza estrutural; temos sistema financeiro sofisticado e baixa produtividade; exportamos tecnologia em nichos e mantemos déficits educacionais crônicos; somos democráticos na forma, mas frequentemente precários na cultura republicana. Não é a toa que estamos entre as 12 maiores economias do mundo mas somos ainda um país subdesenvolvido. É como se o Brasil carregasse, simultaneamente, o século 21 e o século 19. E não adianta querer colocar a culpa na “herança colonial” pois os fatos contrariam essa retórica ardilosa.
Ora, discutir o futuro do Brasil, atualmente, exige olhar para desafios que Zweig não poderia prever: inteligência artificial, transição energética, competição geopolítica, crise climática, envelhecimento populacional, desenvolvimento sustentável da Amazônia e reconfiguração do trabalho. O mundo está mudando em velocidade brutal — e países lentos, ineficientes politicamente, pagam caro. Nesse cenário, o Brasil pode tornar-se protagonista ou espectador. Será protagonista se souber transformar vantagens em estratégia: liderar energia limpa, converter biodiversidade em inovação, fazer do agro uma potência tecnológica, investir em educação de base e construir segurança jurídica que estimule produção. Mas poderá ser espectador se continuar prisioneiro do imediatismo político, do populismo fiscal, da polarização improdutiva e do viciado patrimonialismo que consome o Estado. Além, é claro, continuará como espectador se o governo não perder a velha mania de sempre colocar a culpa nos outros pelos seus próprios defeitos e vicissitudes. Há, contudo, um risco novo: o de trocarmos o velho atraso pela modernização da mediocridade, como já se vê por aí sob o império dos influencers, ou seja, um país hiperconectado, porém intelectualmente superficial; digitalizado, porém, enredado em plataformas de apostas, as chamadas bets
O maior debate do futuro talvez seja esse: não apenas crescer, mas saber em que direção crescer. E aqui vale citar aquela velha máxima atribuída a Sêneca: “Nenhum vento é favorável para quem não sabe para qual porto está navegando”. O futuro do Brasil, à toda evidência, não será decidido por slogans sobre grandeza nacional, ou com bravatas “em defesa da soberania e da democracia”, mas sim por escolhas sobre educação, produtividade, liberdade econômica, instituições e cultura cívica. Zweig via no Brasil, em plena ditadura Vargas, uma promessa universal. Nós, brasileiros, precisamos decidir, neste complexo ano eleitoral, se essa promessa ainda será cumprida ou se permanecerá apenas como bela literatura. Talvez a verdadeira pergunta já não seja se o Brasil é o país do futuro. Mas se o Brasil terá futuro à altura do país que poderia ser.