A história dos partidos políticos no Brasil costuma ser marcada por siglas efêmeras, alianças circunstanciais e lideranças passageiras. Por isso mesmo, alcançar quatro décadas de existência representa mais do que uma marca cronológica: é um testemunho de persistência política e da capacidade organizacional. No Maranhão, a fundação do Partido Liberal (PL), em maio de 1986, pelo advogado Sergio Tamer e pelo deputado federal Alvaro Valle (presidente nacional e fundador do Partido), insere-se nesse contexto histórico de construção partidária em um período decisivo da redemocratização brasileira.
O ano de 1986 carregava forte simbolismo político. O Brasil saía de um longo regime militar e vivia os primeiros passos da reorganização democrática sob a égide da Nova República e do governo Sarney. A sociedade civil buscava novos espaços de participação, enquanto os partidos tentavam se consolidar em meio às incertezas institucionais do período pós-ditadura. Fundar uma legenda política naquele contexto exigia coragem, articulação e visão de futuro. Mais ainda em um Estado historicamente marcado pela concentração de poder político e pela predominância de grupos tradicionais.
O DESAFIO DA ORGANIZAÇÃO
Foi nesse cenário que Sergio Tamer assumiu o desafio de criar e estruturar o PL no Maranhão, presidindo o partido durante aproximadamente dez anos. Não se tratava apenas de registrar uma sigla, mas de organizar diretórios, formar lideranças, disputar eleições e construir identidade política própria. Em uma época sem os instrumentos digitais atuais, o trabalho partidário dependia essencialmente do contato direto com os municípios, das viagens pelo interior e da construção paciente de alianças e bases eleitorais.
“A primeira fase do PL maranhense foi marcada por campanhas intensas – lembra Tamer -, enfrentamentos políticos e pela busca de afirmação dentro do cenário estadual”. Mas, como ocorre com quase todos os partidos emergentes, havia dificuldades financeiras, limitações estruturais e resistência de setores já consolidados do poder político. Ainda assim, o partido conseguiu se inserir no debate público estadual e participar ativamente da vida democrática maranhense.
Cursos de Formação
Mas talvez um dos aspectos mais inovadores daquela experiência política, conforme Sergio Tamer, tenha sido justamente a preocupação com a qualificação e a modernização da atividade partidária. Em um período em que os partidos ainda funcionavam de maneira fortemente improvisada, o PL do Maranhão implantou cursos de formação política voltados à preparação de lideranças e militantes, mas que visavam, sobretudo, difundir a sua doutrina, o liberalismo social. O PL daquela primeira fase antecipou, assim, uma prática que só muitos anos depois se tornaria comum em diversas legendas brasileiras.
Seleção por psicoteste
Outra iniciativa pioneira foi a adoção de processo seletivo com psicoteste para candidatos, aplicado por psicólogos, algo inédito — na política partidária estadual e nacional daquele período. A proposta refletia uma tentativa de conferir maior racionalidade, critério técnico e responsabilidade à escolha de nomes que representariam o partido perante o eleitorado. Era uma visão ousada para a época, marcada pela predominância de indicações puramente pessoais ou circunstanciais.
Ônibus-livre
Também ganhou destaque o projeto do “Ônibus
Livre”, iniciativa que buscava aproximar o partido da população e ampliar a presença política junto às comunidades. O projeto simbolizava uma concepção de partido mais próxima da sociedade, menos restrita aos gabinetes e às estruturas tradicionais de poder.
Em um Maranhão de grandes distâncias e forte desigualdade social, iniciativas dessa natureza possuíam importante dimensão política e social.
Estatização dos cartórios
Outro tema polêmico levantado pelo Partido
na fase da pré Constituinte (1986) foi a estatização dos cartórios judiciais. Nos Fóruns, as serventias judiciais eram todas particulares, desde o cartório de Distribuição, passando pela área civil, penal e de direito público. Por outro lado, as certidões de nascimento eram muito caras e difíceis de se obter para a maioria da população, o que tabém mereceu forte campanha institucional nesse sentido.
Para Sergio Tamer, “mais importante do que os resultados eleitorais imediatos foi a contribuição do PL, naquela época, para o pluralismo político e para a modernização da cultura partidária. A democracia – diz ele – se fortalece justamente quando novas correntes conseguem se organizar institucionalmente e oferecer alternativas ao eleitorado. Nesse ponto, o trabalho realizado ajudou não apenas a ampliar o espaço democrático no Maranhão, mas também a introduzir práticas inovadoras de organização política durante um período de reconstrução institucional do país” – concluiu.
40 ANOS DEPOIS
Quarenta anos depois, a trajetória do PL no Maranhão permite refletir sobre a importância da memória política. Em tempos de comunicação instantânea e de volatilidade ideológica, recordar o esforço de construção partidária ajuda a compreender que a democracia não nasce pronta. Ela depende de homens e mulheres dispostos a enfrentar dificuldades, organizar ideias, formar quadros e criar instituições duradouras.
A política brasileira, muitas vezes criticada — e frequentemente com razão —,também possui
histórias de dedicação
silenciosa, criatividade
institucional e
trabalho persistente.
A fundação do PL no
Maranhão integra
esse conjunto
de experiências
que ajudaram a
consolidar o processo
democrático brasileiro
após o período
autoritário.
Ao completar 40
anos, a história do
partido no Estado
transcende a mera
existência de uma
legenda. Ela simboliza
uma etapa importante
da reorganização
política maranhense
e registra o papel
desempenhado pelo
professor e advogado
Sergio Tamer na
formação de um
espaço partidário
que participou das
transformações
políticas das últimas
décadas, ainda que
tenha havido, como
é comum em muitas
agremiações, alguns
desvios de percurso
por parte de direções
que perderam a
essência daquela
identidade criada sob
a inspiração de Álvaro
Valle.
Ainda assim, e
em que pese tais
acidentes identitários,
quatro décadas
de existência
representam não
apenas longevidade,
mas permanência
histórica. E toda
permanência histórica
carrega consigo
uma contribuição
para a construção
democrática.