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Notícia

Centro de Estudos Constitucionais e de Gestão Pública

Tão somente contra a violência? É preciso ir além. Mas quem se importa?

Publicado por Luis Fernando Spada em JusBrasil

Ontem voltando do Tribunal de Justiça me deparei com um morador de rua que se arrastava sobre chão em frente ao edifício Copan, no centro de SP. Não podia andar porque sua perna, pé, canela e joelho estavam literalmente apodrecendo em feridas e infecções. E quando digo e escrevo ‘literalmente apodrecendo’, não duvide. Parei.

À primeira vista este homem aparentava ser incapaz, pois "chamava urubu de meu louro". Ele coçava muito toda sua perna, estava muito sujo, tinha uma mangueira de soro com sangue presa à sua mão, na outra uma atadura, o que demonstrava que, possivelmente teria escapado de um hospital. Liguei 192, informei o endereço e n.º exato em que aquele senhor estava caído ao chão, solicitei uma ambulância do SAMU e fui descansar, pois já tinha exercido meu papel como cidadão né? “Né não”.

Hoje voltando do Tribunal, ao passar pela Praça da República, me deparei com uma manifestação de umas centenas de pessoas formada na maioria por mulheres, segue o link – e com toda certeza eu achei aquilo formidável! Sempre fui muito adepto as manifestações. De outra maneira, como nos fazer ouvir em meio a tamanha desorganização?

E literalmente, em meio a multidão que passava, se arrastando ao chão, adivinha quem estava? Sim. Exatamente da mesma maneira: muito sujo, abestalhado, com a mangueira de soro ensanguentada presa à mão. Mas ele já havia se arrastado por pelo menos 500 metros do local em que estava no dia anterior.

Enquanto as pessoas urravam lindas palavras de ordem, como "♪ eeetaa… Eta, eta, eta… Eduardo Cunha quer controlar minha bu#$ta" (e eu não estou sendo sarcástico. Eu acho mesmo lindo) todos aquelas pessoas que o transpunham, claramente se enojavam, apontando para a podre perna daquele homem. Pude ver de camarote – eu não estava participando de manifestação alguma.

Liguei para 192 novamente, e, exercitando paciência de monge tibetano informei que já havia solicitado uma ambulância para este senhor há mais de 24 horas, mas que claramente ambulância alguma foi em seu resgate, informando também que desta vez eu ficaria aguardando. Foram aproximadamente 8 ligações durante 1 hora e meia até que uma ambulância chegasse.

Ao chegarem, o médico também pôde presumir que ele teria escapado do hospital, e com claro desgosto na face me disse que isso é mais do que normal – "O que fazer? Eles fogem mesmo" Mas de outro lado, o médico também pôde constatar a possível loucura, patologia ou desvio mental deste senhor, o que o torna totalmente incapaz, sendo um risco à ele próprio.

Para fechar o pacotão e encerrar a obrigação revestida de ‘boa ação’ com chave-de-ouro, no dia seguinte entramos em contato com Defensoria Pública, Promotoria ou mesmo com o Juiz de Direito, para que intervenham no caso desse senhor que claramente é incapaz de perceber a realidade, determinando uma internação involuntariamente (forçada) no hospital – para que ele não escape do centro médico e possa ser medicado e tratado. Isso realmente é fácil. Confesso que um tanto cansativo depois de ter ficado por mais de 6 horas trancado em um tribunal trabalhando. Mas como escrevi, é fácil. Depois posso descansar numa boa cama com uma ‘long neck’ à tira colo.

Mas logicamente que a "sacanagem" da vida sempre bate a porta ao final do dia. (Posso ser um romântico, mas não sou tão otimista assim)

Ao chegar em casa, paginando meu Facebook, me deparei com uma triste postagem sobre um casal de moradores de rua que foi incendiado no Rio de Janeiro, segue o link – Daí tamanha reflexão.

Agora que lês e que já sabes da minha boa sinceridade, ficas sabendo que: não basta só não concebermos mais uma sociedade violenta. Não basta só não aceitarmos a violência. Isso é pouco, muito pouco. Talvez a omissão seja a maior forma de violência. Porque ela se esconde e é silenciosa. E sabe que não estou a falar em caridade. Mas quem se importa né?