
Este é um momento muito significativo em minha vida especialmente porque eu completo, neste ano de 2015, 40 anos de atividades ininterruptas no Estado do Maranhão. Convenhamos que se nesse tempo todo não dá para ver um filme completo, pelo menos algumas imagens podemos recordar. E é inevitável que eu me transporte para aqueles momentos iniciais de doce lembrança quando dei os primeiros passos em terras gonçalvinas.
Cheguei em maio de 1975 pela estrada recém-concluída da Pará-Maranhão. Não conhecia pessoalmente o Estado nem a sua Capital, salvo notícias que chegavam dando conta da transformação que iria se operar com a instalação do milagroso e estupendo Projeto Carajás. Muitas empresas, de todas as partes, também se preparavam para chegar aqui com esse mesmo objetivo de mercado. A nova meca brasileira dos negócios estava sendo anunciada. Projeto Alcoa, Vale do Rio Doce e empresas satélites já esboçavam as primeiras ações em direção a São Luís.
Minha missão era passar um ano aqui, instalar a filial de uma empresa do Pará no ramo da publicidade e logo após retornar para concluir meus estudos. E já se vão 40 anos…. Cheguei dirigindo um pequeno carro, um Chevett, tendo como companhia um colega de trabalho em Belém, o maranhense Jamil Damous, hoje residente no Rio de Janeiro onde teve, ao longo desses anos, brilhante atuação como redator da TV Globo. Na minha bagagem, um saco de livros do meu curso de Direito em andamento na Universidade Federal do Pará, uma mala de roupas e muita expectativa com o que viria pela frente.
Jamil, que era sobrinho do saudoso vice-reitor Manoel Estrela, que estava no exercício do cargo de reitor pela ausência momentânea do reitor eleito José Maria Ramos Martins, levou-me à Reitoria para tratar dos requisitos da transferência do meu curso de Direito. E um dos critérios para isso, era demonstrar a minha vinda e a da empresa, em função do projeto Carajás.
Em todas as conversas e em todos os lugares naquele ano de 1975 o assunto que mobilizava a cidade era a chegada do progresso com o tão decantado projeto Carajás. Era comum os estabelecimentos comerciais ostentarem placas com o nome do Projeto. Por coincidência, hospedei-me logo na Pensão Carajás que ficava na Rua do Sol, na ladeira que descia da esquina do Banco do Estado do Maranhão. Para saborear-se uma boa peixada ou uma caldeirada típica, atravessava-se a Ponte do São Francisco para ali encontrar a Peixaria Carajás.
Achei que havia chegado no momento certo e logo procurei um local para instalar a sede da empresa e iniciar os trâmites de minha transferência de curso. Não precisa dizer que toda a cidade pulsava em torno da Praça João Lisboa e da Praça Deodoro. Assim, em agosto de 1975, já estava instalado em parte do casarão que ficava na Rua da Paz esquina com a Rua de Santaninha, em plena Praça Deodoro. Casa que pertenceu à família do médico Renato Bacelar e de sua irmã a ex-juíza Edine Bacelar. O local era perfeito para se respirar o clima de São Luís de meados dos anos 70: uma cidade que começava a viver uma profunda transformação que iria se consolidar quase 20 anos depois.
O governador Nunes Freire, já indicado pelo comando militar da época, era aguardado em São Luís depois de uma cirurgia em afamada clínica de olhos de Belo Horizonte. O prefeito, nomeado pelo governador, viria a ser o engenheiro Bayma Júnior. Em outubro daquele ano iria acontecer a Expoema, um dos principais eventos do calendário anual do Estado. Para enfrentar uma agência de Goiás que nos anos anteriores fazia a confecção das peças publicitárias e a divulgação nacional da Exposição, reuni-me com as principais lideranças da comunicação do Estado: Lindenberg Leite, Mauro Bezerra, Cordeiro Filho, Nelson Farias e Rodrigo Caracas. Formado assim um pool de agências maranhenses, a conta foi conquistada e a divulgação, pela primeira vez, foi feita por empresas sediadas no Estado.
Foi um início promissor para logo depois vivenciarmos um período de estagnação econômica, de baixíssima oportunidade comercial, em grande parte provocada por fortes embates políticos, especialmente no plano federal, entre o grupo do ex-senador Vitorino Freire e o grupo do senador José Sarney, com reflexos poderosos na economia do Estado. É que com a posse de Ernesto Geisel em 1974 na presidência da República, Vitorino fez Nunes Freire o governador do Maranhão e voltou a ter uma certa influência em Brasília com notória ameaça à hegemonia política que há nove anos vinha sendo formada no Estado. Os efeitos do Projeto Carajás só iriam começar a ser sentidos a partir dos anos 80 já com João Castelo no governo.
Mas o final dos anos setenta foram decisivos para a minha vida pessoal e profissional. Para preencher uma lacuna na imprensa da época, que não editava jornal às segundas-feiras, lancei o semanário Folha de São Luís, que circulou por quase dois anos tendo como editor o jornalista Oliveira Ramos. Raimundo Melo em O Imparcial, Bandeira Tribuzi no Jornal O Estado e Ribamar Bogéa, no Jornal Pequeno, comandavam os principais jornais da cidade. Moreira Serra, na Rádio Ribamar, tinha grande influência política com os seus editoriais. A minha solteirice não iria tardar muito e já em 1976 contraía o meu primeiro matrimônio. Em 1977 nascia meu primeiro filho em São Luís, Sergio Martins Tamer, hoje com 38 anos de idade. Passei a dedicar-me mais à Faculdade de Direito onde fui aluno, dentre outros grandes professores, de José Maria Cabral Marques que viria a ser nomeado reitor da Universidade Federal do Maranhão em 1979. Convidado a integrar a sua assessoria especial, acompanhei de perto todo o desenrolar de sua gestão por quase sete anos. Vi a UFMA crescer e se expandir para o interior com o lançamento dos Campi de Bacabal, Chapadinha e Imperatriz. No âmbito internacional, foram feitos os primeiros convênios com instituições da Europa, dos EUA, do México, da América Central e da América do Sul, enquanto as obras de ampliação do Campus do Bacanga ganhavam força. Trabalhar ao lado do professor José Maria Cabral Marques, naquele período, foi um aprendizado inigualável e eu peço permissão para prestar, aqui, minhas comovidas homenagens ao emérito mestre de várias gerações que hoje se encontra enfermo em sua residência.
Assim, os anos 70 terminavam e em apenas 5 anos eu já estava envolvido com aquela São Luís bela e encantadora, da terrasse do Hotel Central e da vida pulsante em todas as suas ruas e becos do Centro Histórico.
Os anos 80 marcaram o início da minha participação na vida jurídica e política do Estado. Formado em dezembro de 1980, proferi, em nome dos formandos, o discurso da Aula da Saudade, no Teatro Arthur Azevedo. Na mesa, o governador João Castelo, o desembargador Filgueiras e os professores Nivaldo Macieira e João Batista Ericeira. Da assessoria do reitor Cabral Marques passei a integrar, a partir de 1984, o quadro de procuradores da Instituição onde permaneci até me aposentar em 2011.
Em 1986, aos 35 anos de idade, amigos comuns me levaram até à presença do deputado federal Álvaro Valle, no Rio de Janeiro, onde assumi o compromisso de fundar o Partido Liberal no Maranhão. Organizamos então, no auditório da Associação Comercial, um Curso de Formação Política para que Álvaro Valle viesse ao Estado anunciar a fundação do Partido. Era o início da chamada Nova República e o desejo de participação política e partidária era muito grande. Convidamos para esse curso nomes como Maria Aragão, Jackson Lago, Bello Parga, Edison Lobão e os juristas Pedro Leonel Pinto de Carvalho e João Batista Ericeira. O êxito desse curso foi tão grande que o PL passou a estatuir, como meta programática e indispensável para lançar candidatos, cursos de formação política. Fomos também o primeiro Partido, no Estado, a ocupar, por uma hora, o horário pré-eleitoral de televisão, ocasião em que adotamos, como tema do programa, a questão ambiental. Embora recém fundado naquele ano de 1986, apresentamos uma chapa de candidatos a deputado federal e estadual com bom desempenho eleitoral. Para governador, o deputado Álvaro Valle chegou a aprovar nacionalmente o nome do professor João Batista Ericeira que declinou, porém, dessa honrosa candidatura. O grande embate, nessa eleição de 1986, se deu, (com a recusa de João Ericeira), entre Cafeteira e João Castelo.
Mas foi com a eleição municipal de 1988 que o PL elegeu seus primeiros candidatos e revelou para a política Pavão Filho, Tadeu Palácio, Lima Neto e João Bentivi. O puxador de votos naquela eleição foi o nosso candidato a prefeito Edvaldo Holanda que desequilibrou a eleição entre Carlos Guterres (então apoiado pelo governador Cafeteira) e Jackson Lago – permitindo assim a primeira eleição de Jackson a prefeito de São Luís.
Embora o apresentador da antiga TV Ribamar, Marco Antonio Vieira da Silva, fosse o primeiro deputado estadual a integrar o PL, em face da sua mudança de legenda, o primeiro deputado efetivamente eleito pelo Partido foi Roberto Rocha nas eleições estaduais de 1990.
Foram muitos os temas e as bandeiras levantadas pelo PL em quase dez anos em que estive à sua frente no Estado, de 1986 a 1995. Dentre os temas que levantamos, a estatização dos cartórios com a emissão gratuita de certidões foi uma delas. O sistema de transporte urbano foi outra. Quero aqui deixar consignado um agradecimento muito especial a dois companheiros de partido que muito contribuíram para que pudéssemos escrever essa história: a secretária-geral Lindinalva Gomes Lindoso e o vice-presidente Sebastião Djalma Gomes. E o faço invocando a memória do próprio Álvaro Valle, um intelectual com brilhante atuação no parlamento brasileiro e que em muito dignificou a política brasileira do seu tempo.
Desse período de militância política, guardo uma frase que gostava muito de citar: “Quem luta por causas justas, ainda que sofra fortes obstáculos e eventuais derrotas nos embates, não perde nunca, será sempre um vencedor”. Por isso entendo que a dura realidade brasileira, com forte repercussão na situação sócio-econômica maranhense, antes de ser um desestímulo para o cidadão responsável deve, ao contrário, provocar-lhe indignação e uma reação permanente na luta pelas grandes causas. Daí entender a política como uma atividade permanente, inerente ao exercício da cidadania e voltada para o bem comum. A boa política não se faz apenas com cargos públicos.
Em 1996, convidado por Raimundo Ferreira Marques, ingresso nos quadros de Conselheiro da OAB onde tivemos a oportunidade de ajudá-lo na obtenção do terreno junto ao Governo do Estado e na construção da sede do Calhau. Dele recebi apoio para desenvolver intensa atividade na disseminação da ideia dos direitos sociais como base dos direitos humanos e de sua importância, no Estado do Maranhão, para a melhoria nos índices de desenvolvimento humano (IDH).
José Maria Cabral Marques, Álvaro Valle e Raimundo Marques, são dessas pessoas extraordinárias que merecem ser lembradas e reverenciadas em todos os momentos em que se falar de cidadania, eficiência e espírito público. E por coincidência ou não, na universidade, na política e na OAB, tive sempre a honra de compartilhar muitos desses momentos com o professor João Batista Ericeira, a quem presto também aqui minhas homenagens.
Após um período de estudos no exterior e de dois anos, em Brasília, na presidência nacional do PR, partido que sucedeu o PL mediante fusão com o PRONA, retorno ao Maranhão para, por indicação partidária, assumir, em 2009 a Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania do governo de coalização da ex-governadora Roseana Sarney. Em um ano e nove meses desenvolvemos ali cinco projetos federais, dentre eles a Caravana dos Direitos Humanos, o Núcleo de Defesa das Vítimas de Violência e o Registro Civil de Nascimento, em parceria com a Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República, procurando interiorizar ao máximo as ações da secretaria.
Com a criação da Secretaria de Justiça e Administração Penitenciária-SEJAP, em 2011, a atividade penitenciária foi apartada da Secretaria de Segurança Pública e fui então nomeado pela então governadora para assumir a nova Pasta. Na minha equipe operacional todos eram agentes penitenciários concursados. A começar pelo secretário adjunto de Administração Penitenciária, João Bispo Serejo; o Supervisor da Capital Fredson Maciel e o Supervisor do Interior Alfrânio. De igual forma todos os diretores das unidades prisionais também pertenciam à categoria dos agentes penitenciários. O Sindicato tinha firme atuação e relevante papel institucional sob a liderança de Cezar Bombeiro, Carlos James, Liana Furtado e tantos outros.
A gestão que desenvolvemos tinha três eixos prioritários: organização, respeito e disciplina. O resultado do trabalho implementado por essa equipe pode ser constatado pelos dados que o Jornal Pequeno obteve junto ao Departamento Penitenciário Nacional – DEPEN, do Ministério da Justiça, e que foi traduzido no editorial de março de 2013, do Jornal Pequeno, quando já havia deixado o cargo. Cito apenas alguns trechos dessa matéria:
(Veja aqui)
Esse resultado de gestão que pacificou o sistema em 2011 e 2012, mediante um trabalho eficiente e altamente relevante, de diretores e funcionários, é que dedico aos agentes penitenciários.
Meus amigos, convidados dessa augusta casa, presidente Eduardo Braide, deputado Fernando Furtado, já para finalizar, digo que,
Longo tem sido o caminho percorrido, nem sempre os resultados são os esperados, porém o gratificante tem sido a luta e quando se fala em luta tem-se como bom exemplo o bom combate travado pelo deputado Fernando Furtado em prol da melhoria das condições de vida dos pescadores e do povo humilde do interior do Estado.
Fico muito honrado e me orgulho muito desse título. São quatro décadas no Maranhão desde aquele distante ano de 1975 até os dias de hoje. Vim para passar um ano e já se passaram quarenta. Por certo, alguma coisa isso representou em minha vida. Por certo alguma coisa isso tem a dizer para mim próprio. Havia caminhos a percorrer? Para o poeta espanhol Antonio Machado não há caminho…
“Faz-se caminho ao andar. Ao andar se faz caminho/ e ao voltar a vista atrás/ se vê a senda que nunca se voltará a pisar/…”
Mas ao vermos a senda vemos também a imagem como aquela guardada em poema por BandeiraTribuzzi:
Vista do mar, a cidade/ parece humilde presépio/ levantado por mãos puras/ e em sua simplicidade/ esconde glórias passadas/ sonha grandezas futuras.
Meus amigos, nesta terra de bravos, de poetas, escritores e heróis, é dignificante receber oficialmente a cidadania maranhense.
Que o sonho do poeta seja o sonho de todos nós!
Muito obrigado a todos vocês.