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China: Uma ameaça para as democracias ocidentais, por Teresa Roque

OBSERVADOR_TERESA ROQUE

O autoritarismo está de volta. Em particular o “modelo da China”, que tem a pretensão de se considerar um exemplo superior para o mundo e tenta derrubar o nosso liberalismo.

Teresa Roque*

 

Aqueles que acreditam que o “liberalismo” saiu irreversivelmente vencedor após o colapso do comunismo soviético estão infelizmente enganados. O autoritarismo está de volta. Em particular o “modelo da China”, uma mistura de governo autoritário e sistema económico capitalista, que tem a pretensão de se considerar um exemplo superior para o mundo e tenta derrubar o nosso liberalismo.

A China procura ter hegemonia sobre toda a Ásia e sobre o Pacífico. Cultiva e mantém, de forma agressiva, laços com as comunidades de etnia chinesa em países como Singapura e Austrália com o intuito de influenciar as suas políticas. Mais importante ainda, desafia cada vez mais os Estados Unidos para a corrida da liderança global e defronta-o em todas as frentes – económica, política, tecnológica e até militar.

1 A economia da China irá, inevitavelmente, ultrapassar a dos Estados Unidos. Um país com um quarto da população da China não poderá manter, para sempre, uma economia cinco vezes maior do que a da China.

Até ao momento, o “modelo da China” produziu taxas de crescimento anuais impressionantes de 9 ou 10%. Milhões de pessoas foram retiradas do limiar da pobreza. Xangai e Pequim, e outras capitais regionais, são metrópoles em expansão, que rivalizam com qualquer cidade americana ou europeia.

Nos últimos anos, o fluxo anual de ajuda externa da China tornou-a na maior fonte bilateral de assistência externa, chegando mesmo a superar a dos EUA. A sua crescente influência em África, no Sudeste Asiático e na América Latina é notável. O grosso deste auxílio é constituído por créditos ou empréstimos à exportação. Este é um tipo de empréstimo que pode vir a prender as economias mais fracas numa armadilha de dívidas da qual se verão livres apenas quando forçadas a vender os seus ativos estratégicos à China.

Através dos acordos bilaterais da “Belt and Road Initiative” a China está disposta a gastar mais de um trilião de dólares para criar um bloco de laços económicos e estratégicos com países que se estendem por todo o sul, centro e oeste da Ásia, até à Europa e à África. Esta é uma escala de investimento sem precedentes, mesmo quando comparada com a dos investimentos dos Estados Unidos e da União Soviética durante a Guerra Fria.

Um poder económico recém-descoberto traduz-se, mais cedo ou mais tarde, em poder militar e poderá mesmo chegar a causar conflitos geopolíticos. A China procurará inevitavelmente construir a sua própria ordem mundial, moldada pela sua exclusiva visão do mundo, interesses económicos e políticos. De acordo com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, um laboratório de ideias independente de Washington, a China, na última década, quase quintuplicou o seu investimento em defesa nacional. Mais relevante ainda, a China está agora em condições de desafiar a supremacia militar americana onde ela mais importa: nas águas em redor de Taiwan e no disputado Mar da China Meridional.

Com a sua saída da Parceria Transpacífica (TPP) os Estados Unidos autoinfligiram aquela que foi possivelmente a ferida mais grave à sua liderança global desde a criação da organização mundial liberal pós-Segunda Guerra Mundial. A retirada de Trump constituiu um presente enorme para a China autoritária e um sério golpe nas aspirações democráticas no Sudeste Asiático.

Estreitamente aliada a esta expansão económica e militar está a demanda da superioridade tecnológica. A China procura avidamente ganhar o domínio de tecnologias transformadoras de ponta, como a inteligência artificial, a supercomputação, a robótica, os drones, os carros elétricos, a realidade virtual, a blockchain e a biotecnologia. Está preparada para usar todos e quaisquer meios para ir no encalço dessas tecnologias – desde a espionagem industrial e do roubo cibernético ao envio de um sem-número de estudantes para integrarem programas de pós-graduação em ciências e tecnologia nos EUA e a investimentos em start-ups americanas e europeias.

2 Durante décadas, os políticos americanos assumiram que o modelo americano – de democracia liberal com economia aberta – era internacionalmente bem mais apelativo do que o modelo de ditadura e capitalismo estatal da China. Hoje em dia, isto é cada vez menos verdadeiro. Em 2017, o Pew Research Center concluiu que o intervalo entre as atitudes globais favoráveis face ​​à China e aos Estados Unidos tinha diminuído. As apreciações favoráveis da China em países como a Austrália, a Holanda e a Espanha chegaram mesmo a superar as dos EUA em mais de dez pontos percentuais. No Canadá, na Alemanha, em França e na Grã-Bretanha, os níveis de sentimento positivo em relação aos EUA e à China estão apenas a cinco pontos um do outro. Podemos considerar que parte disto se deve ao “efeito” Trump e que assistiremos a um novo crescimento da popularidade dos EUA quando Trump estiver afastado do poder. Mas, em qualquer dos casos, isto é algo que teria sido impensável há 10 anos.

O que atrai as pessoas de todo o mundo em relação à China é o seu rápido crescimento económico. A China tende a incentivar regimes autoritários pelo poder do exemplo. Há cada vez mais países a adotar o autoritarismo como forma de criar crescimento e desenvolvimento. Da Turquia à Polónia, até à Hungria, há uma lista crescente de democracias que têm vindo a desenvolver um certo fascínio pelo “capitalismo autoritário” da China.

A própria China está a ficar gradualmente mais autoritária, dir-se-ia mesmo neototalitária, com seu sistema de crédito social, a intensa supressão das minorias religiosas e culturais, a cada vez mais apertada repressão e a concentração de poder sob o jugo de Xi Jinping. As suas reivindicações de domínio sobre o Mar da China Meridional e as disputas territoriais com outros países asiáticos, bem como a compra de portos e outras infraestruturas, deviam deixar Washington e outras capitais ocidentais alerta.

3 Os Estados Unidos, o garante do liberalismo, tornou-se complacente. Alguns especialistas ainda creem que o crescimento económico virá a requerer, ou melhor, a exigir, liberalização política. Parece que ainda não repararam no fato de que a China, sob Xi Jinping, se tem movido na direção oposta. Poderá esta reafirmação de repressão política significar que o Estado de partido único chinês se sente ameaçado? Possivelmente. Mas, num contexto em que o autoritarismo em geral está de regresso e em que o mundo democrático está a ser assolado por uma crise de confiança, poderá ser complacente olhar para isto como se se tratasse do começo do fim do governo de partido único na China.

4 O Ocidente parece estar a passar por uma época de autoflagelação. Os EUA e o Reino Unido, tradicionalmente os dois líderes do mundo livre, parecem perdidos. O presidente dos EUA conseguiu afastar os seus aliados mais próximos e virar a América para dentro. As políticas de Trump estão enraizadas na visão do mundo “America First” e numa retórica repleta de elogios aos ditadores. O Reino Unido decidiu continuar sozinho e pediu o divórcio da UE. Na verdade, a UE está a sofrer os seus próprios problemas: países do Norte vs países do Sul, uma crescente intolerância em alguns estados membros e uma burocracia paralisante. O mundo livre parece ter perdido a confiança nas suas próprias instituições. Reputadas democracias estão a tornar-se mais polarizadas, intolerantes e até disfuncionais.

A nível económico as notícias que nos chegam não são muito melhores e contribuem ainda mais para uma crise de legitimidade. As crescentes disparidades, que roçam a obscenidade, entre ricos e pobres e os rendimentos estagnados da classe trabalhadora e da classe média não são a melhor publicidade. As pessoas começam a questionar-se se a vida dos seus filhos será melhor do que a deles. Há hoje uma nova geração de intelectuais que proclama a superioridade do “modelo chinês” de governo autocrático combinado com um vibrante crescimento capitalista.

Por mais que gostemos de culpar Trump por todos os problemas do mundo, o declínio da democracia americana e a sua crescente postura isolacionista precederam a eleição de Trump. O fiasco da guerra do Iraque e o colapso financeiro de 2008 não contribuíram muito para o prestígio da América. Décadas de crescente polarização política transformaram os seus dois principais partidos em tribos em guerra. Os meios de comunicação social privilegiam o sensacionalismo e o pensamento de grupo – o debate baseado em evidências e o livre pensamento foram afastados pelo discurso ideológico e do politicamente correto.

5 Finalmente, um dos elementos mais alarmantes do crescente perfil internacional da China são os seus esforços acelerados para projetar “sharp power” , uma expressão de Larry Diamond, um dos maiores peritos académicos em democracia do mundo. O poder duro refere-se ao recurso regular da China à desinformação, ao equívoco, à coação, ao suborno e à influência penetrante em instituições políticas e civis das sociedades abertas com o intuito de tentar moldar o discurso sobre a China.

A China está a usar a abertura e o pluralismo das democracias para as subverter. Estabelece alianças com grupos sociais chineses no exterior e com indivíduos proeminentes, enquanto vai também, ao mesmo tempo, gerindo informações, promovendo propaganda e envolvendo-se em espionagem. Ex-altos funcionários dos governos do Reino Unido, de França, da Alemanha, da Austrália e de Portugal têm vindo a ocupar cargos lucrativos com interesses chineses depois de deixarem as suas funções governamentais.

A Covid-19 é um exemplo de como a China se tornou boa a “reinterpretar” a realidade. É irónico como a China foi o local onde (não convém esquecermos) a Covid-19 surgiu pela primeira vez e onde as autoridades inicialmente ocultaram o problema do mundo, sem dúvida piorando as coisas. Desde então, a China tem tentado alterar o discurso e tornar-se o “salvador” da humanidade, fornecendo ao Ocidente testes (muitas vezes defeituosos), máscaras faciais e ventiladores. Numa altura em que a China tem muito a explicar, nós vergonhosamente compramos essa retórica.

Será que estamos perante o início de uma Segunda Guerra Fria? Em grande medida, a China parece achar que o seu modelo pode competir frente a frente com a democracia e o capitalismo ao estilo americano, com os seus padrões ocidentais “enfadonhos” de responsabilidade e as suas crenças “moralistas” de liberdade e direitos. Tudo isto representa uma enorme ameaça às nossas ‘sociedades abertas’.

Seria bom que nos lembrássemos de quão más são as alternativas a uma forma de vida democrática-liberal. Não é possível viver-se em liberdade sem democracia. Numa não-democracia não existem direitos individuais para falar, publicar, pensar, orar, reunir, criticar, ler e pesquisar na Internet. A China pode ostentar um modelo de organização superior, mas sem o estado de direito, apenas os governados são constrangidos, não os governantes. Este tipo de organização governamental pode rapidamente transformar-se em tirania, em terror, em aprisionamento em massa e em genocídio.

Quer os protestos estudantis em Hong Kong, quer agora a Covid-19 abriram-me os olhos. O progresso tecnológico e a capacidade de processamento de dados da atualidade permitem que regimes autocráticos como o da China possam controlar os seus cidadãos de formas que nem Hitler nem Stalin teriam imaginado. Este não é um modelo superior. Porém, representa uma ameaça muito real às democracias ocidentais. Em muitos aspectos, a China é um inimigo bem mais perigoso do que o ex-Império Soviético alguma vez foi. Ignorá-lo seria imprudente.

*Teresa Roque é colunista de O Observador

10 mai 2020

 

 

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