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Artigos Sergio Tamer

O ALINHAMENTO DO BRASIL COM O IRÃ E A CRISE AMAZÔNICA

Sergio Tamer6 min de leitura

 

Sergio Tamer é professor e advogado, presidente do Centro de Estudos Constitucionais e de Gestão Pública – CECGP

 

          Em 2010, o caso de Sakineh, mulher iraniana acusada de adultério e condenada à morte por apedrejamento (lapidação), ganhou atenção global, mas nenhuma censura do governo Lula que se limitou a dizer: “Preciso respeitar as leis de um país estrangeiro”. O aloprado Suplicy chegou a dizer, no Senado, que esse castigo às mulheres era “normal” desde a época de Cristo…

Agora, em 2026, a estudante iraniana Najmeh Amini, de 23 anos, foi condenada à morte por blasfêmia por causa de uma publicação nas redes sociais. A repressão contra as mulheres é recorrente e conhecida no Irã, governado por aiatolás misóginos, mas nada se iguala ao massacre que aquele governo promoveu em janeiro deste ano.

A Time relatou que uma lista específica incluía 30.304 mortes entre homens e mulheres, em sua maioria jovens, somente nos dias 8 e 9 de janeiro, relacionada aos protestos contra o governo tirânico do aiatolá Ali Khamenei. Mais uma vez o governo brasileiro silenciou de forma eloquente.

Organizações como a Anistia Internacional criticaram Lula por não usar sua influência para agir mais fortemente contra os crimes perpetrados pelo regime iraniano. No Brasil, a imprensa e a oposição acusaram-no de priorizar laços com o Irã em detrimento de valores humanitários. Segundo a Folha de São Paulo, o governo Lula se absteve de apoiar resolução da ONU contra violações de direitos humanos desde a época de Ahmadinejad. Na verdade, o presidente Lula possui um relacionamento próximo com as lideranças do Irã desde seu primeiro mandato presidencial, e essa aliança com o Irã o colocou no centro de diversas controvérsias, devido a temas como: programa nuclear; direitos humanos e relações com ditadores. A Anistia Internacional e a imprensa já criticaram algumas de suas iniciativas como ingênuas, imprudentes ou coniventes com um regime ditatorial. Jackson Diehl, editor adjunto da página editorial do The Washington Post, a certa altura chamou Lula de “melhor amigo dos tiranos no mundo democrático” e criticou suas ações em relação ao Irã.

Um Estado terrorista – O Irã, além de ser uma brutal ditadura é um Estado terrorista que financia, treina e fornece armas para diversos grupos armados e organizações, a exemplo do Hezbollah, com base no Líbano, uma espécie de partido político e milícia xiita, fundado e amplamente apoiado pelo Irã desde os anos 1980. O Hamas, com atuação nos Territórios Palestinos, é um grupo sunita que controlava a Faixa de Gaza, financiado e equipado militarmente por Teerã desde o início dos anos 1990, responsável por acender o estopim de uma guerra até hoje em curso. A Jihad Islâmica Palestina (PIJ) é um grupo militante palestino que recebe forte apoio financeiro e bélico do governo iraniano. Outro que está agora muito ativo no conflito bélico é um grupo do Iêmen, denominado Houthis, que recebe apoio logístico, financeiro e militar do Irã. O país dos aiatolás também financia a Resistência Islâmica no Iraque, grupo que reúne diversas milícias xiitas, responsáveis por ataques contra alvos dos EUA e de Israel na região.

          O governo dos Estados Unidos classifica formalmente o Irã como um Estado patrocinador do terrorismo desde 1984. Mas é certo que a dinâmica de influência e o poder de repasse de recursos do Irã sofreram alterações significativas após sucessivos confrontos e baixas militares envolvendo recentemente Israel e os Estados Unidos na região. É inaceitável, assim, que o Brasil deixe de se alinhar com as principais democracias do mundo para alabar ditaduras sanguinárias que afrontam o sistema internacional de Direitos Humanos. Nesse campo, não podemos ter dois discursos, um interno, em defesa da democracia e das mulheres e outro externo, em defesa de ditaduras que oprimem as mulheres, pois os exemplos valem mais do que palavras.

CV e PCC na Amazônia – A Amazônia está em chamas e as populações indígenas estão sendo seriamente ameaçadas por uma injustificável omissão. As queimadas criminosas multiplicam-se e atualmente contam-se mil e trezentos focos de incêndios, muitos em meio à área de florestas virgens, o que levantou a suspeita de autoridades do governo quanto à atuação adredemente planejada de audaciosa grilagem para fins comerciais. A agressão ao meio ambiente amazônico e as consequências que essas ações criminosas provocam no ecossistema global já preocupa a comunidade internacional. Mais uma vez a omissão do governo vem sendo seriamente criticada, sobretudo porque já é do conhecimento dos órgãos de segurança a atuação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) na Região.

           Segundo a descrição dessas fontes, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) controlam rotas estratégicas do tráfico internacional de drogas e expandiram suas atividades para crimes ambientais na Amazônia Legal. De acordo com levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública a atuação das duas facções na região envolve, dentre suas principais atividades, a disputa de rotas fluviais e terrestres (como o rio Solimões e a região de fronteira) para escoar cocaína e skank vindos da Colômbia, Bolívia e Peru com destino a centros urbanos do Brasil e à exportação para a Europa e EUA. Na área do Narcogarimpo e mineração ilegal, o crime organizado financia e dá proteção armada a garimpos clandestinos, utilizando pistas de pouso, aeronaves e pilotos do garimpo para o transporte de entorpecentes.

            No tocante aos crimes ambientais propriamente dito, os narcoterroristas têm envolvimento direto com o desmatamento ilegal, extração de madeira e grilagem de terras, transformando a floresta em um modelo de negócio ilícito. Essa atuação, inclusive, tem ocorrido há vários anos em algumas cidades maranhenses fronteiriças com o Pará envolvendo a atuação de certos políticos daquela região. Isto sem falar na movimentação de armamentos pesados para sustentar o domínio territorial e os confrontos armados entre as facções rivais. Enquanto o Comando Vermelho possui maior capilaridade e hegemonia em centenas de municípios amazônicos (especialmente no Amazonas e Pará, mas também em alguns do Maranhão), o PCC disputa pontos estratégicos e portos de escoamento.

          Situação melhor, é bom que se diga, não ocorreu no governo de Jair Bolsonaro, que teve como ministro da área o pilantra Ricardo Salles (2019-2021). O governo Lula, porém, prometeu reverter a situação com a carola Marina Silva (2023-2026), mas o resultado foi ainda mais perverso para as mudanças climáticas globais e o meio-ambiente amazônico. A realidade mostra a terrível situação dos povos indígenas, da fauna e da flora, tão massacrados por sucessivos governos. Daí a pergunta irrespondível diante de nossa irreponsabilidade: por que falharam o Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia e o Movimento Impacto Amazônia?

          E assim segue a incompetência de gestão pública no Brasil, com muito discurso e baixa ou nenhuma eficiência…