No final dos anos 60, começou o desmatamento no Estado com a promessa da chegada do progresso…
Sergio Tamer, professor e advogado, é presidente do Centro de Estudos Constitucionais e
de Gestão Pública -CECGP
Durante décadas, consolidou-se no imaginário brasileiro a ideia de que abrir a floresta é sinônimo de desenvolvimento. A narrativa é simples e sedutora: derruba-se a vegetação, expande-se a fronteira agrícola, gera-se emprego, riqueza e prosperidade. No entanto, os dados mais recentes mostram que essa equação não fecha — e, pior, cobra um preço alto e duradouro.
O Maranhão é um bom exemplo disso. No final dos anos 60, começou o desmatamento no Estado com a promessa da chegada do progresso. O Estado tornou-se, de fato, um grande produtor de carne bovina, considerado o segundo maior rebanho da região, com mais de 10 milhões de cabeças em 2023, atrás apenas da Bahia. No agronegócio, é o segundo maior produtor de grãos do Nordeste, sendo impulsionado principalmente pelo cultivo de soja e milho. E dados de 2024 do IMESC indicaram que o Maranhão alcançou a 12ª colocação no ranking nacional. Para esse feito econômico, o Estado, claro, abriu mão de sua rica cobertura vegetal e hoje é o que tem o pior IDH do Brasil.
As pesquisas recentes mostram, com exatidão, que esse é um fato recorrente. Dados levantados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que as 50 cidades brasileiras que mais desmataram entre 2008 e 2022 apresentam renda média 27% inferior à média nacional. Não se trata, porém, de um detalhe estatístico, mas de uma evidência contundente: a devastação ambiental não tem sido capaz de promover desenvolvimento econômico consistente, muito menos bem-estar social.
O caso de municípios como Altamira, no Pará e Lábrea, no Amazonas, é emblemático. Apesar de liderarem rankings de desmatamento, seguem com indicadores de renda abaixo da média nacional. Isso desmonta, de forma inequívoca, o mito de que a destruição da floresta seria um atalho para o progresso, pois na prática, o que se observa é um ciclo econômico predatório e de curto prazo.
O desmatamento, muitas vezes, gera um “boom” inicial: há empregos temporários, aumento pontual de renda e alguma movimentação econômica. Mas esse impulso é efêmero. Uma vez esgotados os recursos naturais mais imediatos, restam territórios degradados, baixa produtividade, concentração de renda e fragilidade social. O que poderia ser desenvolvimento transforma-se em estagnação.
Além disso, os impactos sociais são profundos. Regiões com alto índice de desmatamento frequentemente enfrentam aumento da violência, conflitos fundiários e problemas de saúde pública. A ausência de planejamento e de políticas estruturantes transforma essas áreas em territórios marcados pela instabilidade, onde o Estado chega tarde — ou sequer chega, a exemplo da presença dos garimpos ilegais e de invasões de terras indígenas.
Como se não bastasse, há ainda o efeito climático, que agrava o quadro econômico. A derrubada da floresta altera o regime de chuvas e eleva as temperaturas, comprometendo justamente a atividade que, em tese, justificaria o desmatamento: a produção agropecuária. Ou seja, destrói-se o ativo natural que sustenta o próprio sistema produtivo., daí se dizer que este é um modelo que sabota a si mesmo.
Assim, o alerta feito por pesquisadores ligados ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reforça essa conclusão: não há evidência de que o desmatamento promova desenvolvimento humano sustentável. Ao contrário, ele amplia vulnerabilidades e reduz as perspectivas de longo prazo.
Ora, o Brasil, que se orgulha de seu protagonismo agrícola e ambiental, precisa enfrentar essa contradição com seriedade. Não se trata de opor produção e preservação, mas de reconhecer que o verdadeiro desenvolvimento depende de equilíbrio, tecnologia e uso inteligente dos recursos naturais. Países e regiões que prosperaram de forma duradoura não o fizeram à custa da destruição de seus ativos ambientais, mas sim da sua valorização. Persistir no modelo atual é insistir em um erro histórico: confundir expansão com progresso, exploração com desenvolvimento.
Os dados estão postos. Resta saber se o país terá disposição para abandonar mitos convenientes e construir um caminho que una crescimento econômico, inclusão social e responsabilidade ambiental. Porque, ao que tudo indica, continuar derrubando florestas não está nos levando adiante — está, na verdade, nos deixando para trás.