
Sergio Tamer é professor e advogado, presidente do Centro de Estudos Constitucionais e de Gestão Pública – CECGP
O Brasil gosta de se ver como uma potência energética e agrícola. Na propaganda oficial, somos autossuficientes em petróleo e temos orgulho do agro, que abastece o mundo de alimentos. E, em muitos aspectos, essa imagem é verdadeira. Desde 2006, o país alcançou a tão celebrada autossuficiência na produção de petróleo bruto, impulsionada sobretudo pela atuação da Petrobras e pela exploração do pré-sal. No campo, consolidou-se como um dos maiores celeiros do mundo. Mas essa narrativa de força esconde uma fragilidade estrutural que o país insiste em ignorar: a dependência externa em etapas essenciais da cadeia produtiva, tanto no setor de combustíveis quanto na agropecuária. Daí se dizer que, na prática, uma meia-verdade é uma mentira inteira o que faz com que a realidade rapidamente dissipe a imagem de autossuficiência nestes dois estratégicos âmbitos da economia.
Ora, no setor de petróleo, a autossuficiência é, à toda evidência, incompleta. Embora produzamos mais óleo bruto do que consumimos, contudo, não refinamos o suficiente para atender à demanda interna por derivados como gasolina e, sobretudo, diesel. O resultado é paradoxal: exportamos petróleo cru e importamos combustíveis refinados. Em momentos de instabilidade global, como guerras ou crises geopolíticas, essa dependência se traduz em volatilidade de preços e vulnerabilidade econômica. O país, que poderia ser plenamente soberano em energia, permanece exposto.
Essa limitação não decorre de falta de capacidade técnica, mas de escolhas estratégicas — ou da ausência delas. O parque de refino nacional, com pouco menos de duas dezenas de unidades e fortemente concentrado na Petrobras, não acompanhou o crescimento da produção de petróleo. Refinarias como a Replan, em São Paulo, operam com relevância, mas não são suficientes para fechar essa equação. Ao longo dos anos, investimentos foram adiados, projetos interrompidos e oportunidades perdidas. A notória refinaria Premium, no Maranhão, em Bacabeira, por exemplo, era apenas um tigre de papel destinado a fazer caixa de campanha política. Uma cilada histórica!
No agronegócio, a contradição se repete com contornos ainda mais preocupantes. O Brasil é um gigante na produção de alimentos, mas depende de importações para cerca de 87% dos fertilizantes que utiliza. Trata-se de um insumo estratégico, responsável por parcela significativa dos custos de produção. A dependê
ncia de países como Rússia, China, Canadá e Marrocos expõe o setor a riscos geopolíticos evidentes — como se viu recentemente, com oscilações de oferta e preço decorrentes de conflitos internacionais.
A consequência é clara: o país que alimenta o mundo não controla plenamente os meios para sustentar sua própria produção. É uma vulnerabilidade silenciosa, mas profunda. E, diferentemente de fatores naturais, ela não é inevit
ável — resulta de planejamento insuficiente e de uma visão de curto prazo.
Falta, assim, ao Brasil populista transformar sua abundância em autonomia real. Isso passa, necessariamente, por uma agenda consistente e séria de investimentos em refino e pela criação de uma política industrial voltada à produção de fertilizantes. Não se trata de substituir o mercado, mas de corrigir distorções estratégicas que comprometem a segurança econômica nacional.
Enquanto essa agenda continuar sendo negligenciada por força de discursos populistas e demagógicos, o país seguirá refém de uma autossuficiência apenas aparente — forte na superfície, mas frágil em suas bases. E, em um mundo cada vez mais instável, essa fragilidade cobra um preço alto demais para ser ignorado.