
Embora o ambiente de turbulência ainda se sinta no ar, Brasília parece viver já em clima de virar de página, com os olhos postos mais no futuro próximo do que num qualquer ajuste de contas que, em alguns momentos, petistas e opositores deixaram antever.
Apesar das ameaças que os ainda detentores do poder, pelo menos formalmente, vão fazendo aqui e ali, neste ou naquele discurso mais inflamado, visando animar seguidores, o país parece convencido que, dentro de duas semanas – o que, em história não é nada, é quase um já agora -, Dilma Rousseff sairá do Palácio do Planalto.
Não se sabe se descerá, naquela passada pesada, aparentemente decidida, a rampa do Palácio do Planalto, que dá para a Praça dos Três Poderes, com quem sempre mal conviveu – como o fez, com a arrogância dos antigos coronéis nordestinos, Collor de Melo, em 1992-, ou se optará por uma saída mais discreta, talvez pela garagem. Mas isso são pormenores insignificantes para a história do país.
No meio de todas as dúvidas, incertezas e até angústias existenciais – Sartre e madame Beauvoir gostariam de o saber -, uma certeza eu tenho: seja a que hora for, os céus de Brasília serão cortados por fogos comemorativos, tão do agrado da população, que não perde oportunidade para soltar rojões, seja porque o clube ganhou, seja porque o clube rival perdeu. Eu não o farei, já que me ensinaram, desde pequenino, que brincar com o fogo queima. Queima, pois, e digo-o sem qualquer segundo sentido.
Esse festejar pode ocorrer já nos próximos dias, se a comissão do impeachment do Senado decidir, por maioria simples, que o processo deve continuar. Assim acontecendo, Dilma terá suspensas automaticamente as suas funções de presidente e deverá deixar o escritório no Palácio do Planalto, palco de infindáveis arrebatamentos e descortesias aos que com ela privaram ao longo dos últimos anos. Deixa o Planalto, mas enquanto durar o processo poderá residir no Palácio da Alvorada, embora com o salário cortado pela metade.
Por ora, o ambiente que se vive mescla manifestações de alívio e de preocupação. O cidadão comum parece ter a percepção de que assiste à fase terminal, melancólica, de um governo desgovernado, sem rumo, de discursos vazios, atabalhoados, incongruentes, que marcaram os quase seis anos de Dilma no poder.
Expressões de alívio, como "uff, já não era sem tempo", isto para recorrer a exemplos, digamos, mais inocentes, são intercaladas com frases do mais baixo calão do cidadão número 11 milhões que foi demitido a semana passada da usina siderúrgica onde trabalhou durante mais de dez anos na Baixa Santista, no litoral paulista, que tem em casa dois filhos com dez e oito anos, e a mulher que perdeu o emprego o ano passado, quando a presidente Dilma, a caminho da reeleição, dizia que a economia do país estava ótima e que quem dissesse o contrário certamente não era um bom brasileiro.
Nem todos, no entanto, têm postura crítica em relação à presidente. Para os humoristas, profissionais e amadores, os seis anos de consulado de Dilma Rousseff têm sido um maná. A presidente é fonte, quase inesgotável, parece-me, de centenas de charges e de piadinhas que circulam nos veículos de comunicação, nas redes sociais, nas mesas de trabalho dos escritórios ou nos corredores das indústrias.
Para o meu vizinho, sô Giraldino, Dilma Rousseff, de quem foi eleitor, já é uma carta fora do baralho. De fervoroso adepto, há meia dúzia de anos, ele é, hoje, um encarniçado opositor. O pequeno comércio que tinha numa cidade satélite de Brasília, que lhe possibilitava viajar de avião, pelo menos uma vez por ano, com a mulher e um ou outro neto, até à distante Santa Maria, nas planícies gaúchas, fechou portas. Ninguém lhe valeu, nem a fé em Lula e em Dilma. Sô Giraldo é só mais um dos muitos milhares de micro e pequenos empresários que tiveram de encerrar os negócios, de norte a sul do Brasil.
Hoje, o cidadão comum não coloca sequer a possibilidade – embora constitucionalmente possível – que, no final dos 180 dias em que o processo de impeachment vai decorrer para apresentação de provas e julgamento, Dilma Rousseff seja declarada inocente e volte a subir a rampa do Palácio do Planalto.
Mesmo entre os petistas que ainda resistem ao afundamento do partido, graças aos escândalos de corrupção e incompetência governativa – o que não significa, a meu ver, menos bondade social de muitos projetos– a inevitabilidade da queda de Dilma parece um dado adquirido.
Os protestos nas ruas, convocados para domingo, 1. de maio, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Central Única dos Trabalhadores (CUT) e movimentos próximos, como os Sem Terra e os Sem Teto, deverão refletir já, em expressão numérica, o final de um ciclo político que se fecha e, sobretudo, o falhanço de um projeto que encheu de esperança os brasileiros, mas que foi pervertido, em 14 anos de exercício do poder, por concepções populistas, por alianças com alguns dos setores mais conservadores e retrógrados do país, e por práticas de banditismo político. De colarinho engomado e punhos de renda, quero acreditar, mas, mesmo assim, não menos criminosas.
No Senado, onde prosseguem as sessões da Comissão Especial de Impeachment, os governistas estão reduzidos a meia dúzia de votos, que procuram compensar recorrendo a todos os mecanismos, tão bem conhecidos dos parlamentares, para protelarem o avanço dos trabalhos. Esperneiam em vão. O rito processual está definido e as suas etapas bem definidas. A admissibilidade do processo de impeachment será a primeira grande votação. Caso seja aprovada – dada a correlação de forças entre aliados de Dilma e opositores tudo indica que assim será – o processo passará então para a etapa de recolha de provas e julgamento, o que acontecerá ao longo de 180 dias, que culminarão com a decisão definitiva sobre o impedimento da presidente da República.
Se assim for, o Brasil terá nos próximos dois anos o vice-presidente da República, Michel Temer, à frente dos destinos do país. Será ele o presidente. E para reduzir as críticas de quantos olham para o seu partido, o PMDB, com grandes e, julgo, justificadas reservas, Temer já deixou claro que não será candidato às eleições de 2018.
Vizinho de Dilma, no Palácio do Jaburu, residência do vice-presidente, às margens do Lago Paranoá, Temer anda numa azáfama sem fim. Creio que nunca o Jaburu foi palco de tão grande entra e sai de políticos, empresários, sindicalistas. Centristas, direitistas, de esquerda. Michel Temer sabe que, como disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a situação do Brasil é de "emergência nacional" e o próximo Executivo não poderá ser o governo de um só partido. Uma coisa o país quer ver garantida: a luta contra a corrupção tem de continuar, sem entraves de qualquer espécie. Temer, apesar do seu partido, a par do PT e do PP ( Partido Progressista, de direita), ser dos mais envolvidos nos esquemas tentaculares montados na estatal Petrobras, parece ter ouvido as vozes das ruas e veio a público afirmar que a Lava Jato é para continuar, sem obstáculos. Vamos aguardar.
Até lá, talvez os atuais dirigentes do PT percebam – claro que já perceberam – que não foram vítimas de qualquer golpe. São vítimas, sim, dos próprios erros. E são expulsos do poder, constitucionalmente, por força das ruas. Ou os leitores acham que a maioria dos deputados brasileiros – aqueles que mandam beijinhos para os filhos, para as netos, para o periquito quando votam – moveriam uma palha se não fosse a revolta nacional, transversal a todas as classes sociais?