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São Luís, 409 anos: cidade do coração!

São Luís_centro histórico

“Aliás, em todas as conversas e em todos os lugares naquele ano de 1975 o assunto que mobilizava a cidade era a chegada do progresso com o tão decantado projeto Carajás. Era então comum os estabelecimentos comerciais evocarem tão auspicioso momento ostentando placas com o nome Carajás…”                                                                                                                                         Por Sergio Victor Tamer

   O aniversário de São Luís é sempre uma data que me toca muito, especialmente porque eu completo, neste ano de 2021, 46 anos de atividades ininterruptas em solo ludovicense. Se não há como retrospectar todo esse tempo, em tão curto espaço de um artigo, pelo menos algumas imagens posso aqui recordar. E é inevitável que eu me transporte para aqueles momentos iniciais de emotiva lembrança quando iniciei minhas andanças pela esperançosa cidade dos anos 70.

    Ao chegar em maio de 1975 pela Pará-Maranhão, estrada recém-concluída e de pavimentação impecável, fiz esse percurso em torno de 6/ 7 horas de viagem, tempo impensável para os dias de hoje pelas más condições de trafegabilidade. Não conhecia o Estado nem a sua Capital, salvo notícias que chegavam dando conta da transformação que iria se operar com a instalação do grandioso Projeto Carajás. Muitas empresas, de todas as partes, também se preparavam para chegar aqui com esse mesmo objetivo de mercado. A nova Meca brasileira dos negócios estava sendo anunciada. São Luís passou assim a ser o novo porto de chegada… Projeto Alcoa, Vale do Rio Doce e empresas satélites já esboçavam as primeiras ações e despertavam também o imaginário do cidadão comum… “São Luís vai virar Paris, está por um triz…” cantavam, com ufanismo, Gerude e Jorge Thadeu…

    Tinha por missão empresarial passar um ano em São Luís, instalar a filial de uma agência de Belém no ramo da publicidade e logo após retornar para concluir meus estudos que já haviam sido iniciados na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Pará. De um ano previsto… já se vão 46 anos….e nem me dei conta do tempo…

    Em todas as conversas e em todos os lugares naquele ano de 1975 o assunto que mobilizava a cidade era a chegada do progresso com o tão decantado projeto Carajás. Era então comum os estabelecimentos comerciais evocarem tão auspicioso momento ostentando placas com o nome Carajás. Por coincidência, hospedei-me logo na “Pensão Carajás” que ficava na Rua dos Afogados, na ladeira que descia ao pé do Banco do Estado do Maranhão. Para saborear-se uma boa peixada ou uma caldeirada típica, atravessava-se a Ponte do São Francisco para ali encontrar-se a “Peixaria Carajás” na Avenida Castelo Branco, e assim por diante. O nome “Carajás” transmitia entusiasmo e esperança para todos!

    Com toda essa euforia à minha volta, achei que havia chegado no momento certo e logo procurei um local para instalar a sede da empresa e iniciar os trâmites de minha transferência de curso. Não se precisa dizer que toda a cidade pulsava em torno da Praça João Lisboa e da Praça Deodoro e desses centros ela se irradiava por todo o seu belo e sinuoso traçado. Assim, em agosto de 1975, já estava eu instalado em parte do casarão que ficava na Rua da Paz esquina com a Rua de Santaninha, em plena Praça Deodoro. O local era perfeito para se respirar o clima de São Luís de meados dos anos 70: uma cidade que começava a viver uma profunda transformação que somente iria se consolidar quase 20 anos depois.

    Foi um início promissor para logo depois vivenciarmos um período de estagnação econômica, de baixíssima oportunidade comercial, em grande parte provocada por fortes embates políticos que viriam suceder-se, especialmente no plano federal, com reflexos poderosos na economia do Estado. É que com a posse de Ernesto Geisel em 1974 na presidência da República, Vitorino, além de fazer Nunes Freire o governador do Maranhão, voltou a ter uma certa influência em Brasília exercendo, a partir daí, notória ameaça à hegemonia política que há nove anos vinha sendo formada no Estado. Além disso, os efeitos econômicos do Projeto Carajás só iriam começar a ser sentidos pelo mercado a partir dos anos 80 já com João Castelo à frente do governo.

    Mas o final dos anos setenta foram decisivos para a minha vida pessoal e profissional. Para preencher uma lacuna na imprensa da época, que não editava jornal às segundas-feiras, apresentei ao mercado editorial o semanário “Folha de São Luís”, que circulou por quase dois anos tendo como editor o jornalista Oliveira Ramos. No campo da imprensa, Raimundo Melo em O Imparcial, Bandeira Tribuzi no Jornal O Estado e Ribamar Bogéa, no Jornal Pequeno, comandavam os principais jornais da cidade. Moreira Serra, na Rádio Ribamar, tinha grande influência política com os seus inflamados editoriais radiofônicos. Ao transferir, anos depois, a “Folha de São Luís” para o combativo jornalista Walter Rodrigues, passei a dedicar-me mais ao estudo do Direito. Na Universidade conheci o saudoso professor José Maria Cabral Marques que viria a ser nomeado reitor da Universidade Federal do Maranhão em 1979. Convidado a integrar a sua assessoria especial, acompanhei de perto todo o desenrolar de sua gestão por quase sete anos. Vi a UFMA crescer e se expandir para o interior com o lançamento dos Campi de Bacabal, Chapadinha e Imperatriz. No âmbito internacional, foram feitos os primeiros convênios com instituições da Europa, dos EUA, do México, da América Central e da América do Sul, enquanto as obras de ampliação do Campus do Bacanga ganhavam força. Trabalhar ao lado do professor José Maria Cabral Marques, naquele período, foi um aprendizado inigualável.

     Assim, os anos 70 terminavam e em apenas 5 anos eu já estava envolvido com aquela São Luís bela e encantadora, da terrasse do Hotel Central, da Praia do Olho D´Água e da vida pulsante em todas as ruas e becos do Centro Histórico. Os anos 80 iriam marcar o início da minha participação na vida jurídica e política do Estado. Formado em dezembro de 1980, proferi, em nome dos formandos, o discurso da Aula da Saudade, no Teatro Arthur Azevedo.

    Em 1986, aos 35 anos de idade, amigos comuns me levaram até à presença do deputado federal Álvaro Valle, no Rio de Janeiro, onde assumi o compromisso de fundar o Partido Liberal no Maranhão. Era o início da chamada Nova República e o desejo de participação política e partidária era muito grande. Organizamos então, no auditório da Associação Comercial, um Curso de Formação Política para que o presidente nacional viesse ao Estado anunciar a fundação do Partido. Convidamos para esse curso nomes como Maria Aragão, Jackson Lago, Bello Parga, Edison Lobão e os juristas Pedro Leonel Pinto de Carvalho e João Batista Ericeira. O êxito do curso foi tão grande que o PL passou a estatuir, como meta programática e indispensável para lançar candidatos, cursos de formação política em todo Brasil.

    Desse período de militância política, guardo uma frase que gostava muito de citar: “Quem luta por causas justas, ainda que sofra fortes obstáculos e eventuais derrotas nos embates, não perde nunca, será sempre um vencedor”. Por isso a dura realidade brasileira, com forte repercussão na situação socioeconômica maranhense, antes de ser um desestímulo para o cidadão responsável deve, ao contrário, provocar-lhe uma reação permanente na luta pelas grandes causas. Daí entender a política como uma atividade permanente, inerente ao exercício da cidadania e voltada para o bem comum. A boa política não se faz apenas com cargos públicos, mas com a participação viva e incessante em todos os assuntos de interesse geral.

    Após um período de estudos no exterior e de quatro anos, em Brasília, na presidência nacional do PR, partido que sucedeu ao PL mediante fusão com o PRONA, retorno ao Maranhão para, por indicação partidária, assumir, em 2009 a Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania do governo de coalização da ex-governadora Roseana Sarney. Com a criação da Secretaria de Justiça e Administração Penitenciária-SEJAP, em 2011, a atividade penitenciária foi apartada da Secretaria de Segurança Pública e fui então nomeado para assumir a nova Pasta. O resultado altamente satisfatório do trabalho implementado pela minha equipe pode ser constatado pelos dados que o Jornal Pequeno obteve junto ao Departamento Penitenciário Nacional – DEPEN, do Ministério da Justiça, e que foi traduzido no editorial de março de 2013, quando já havia deixado o cargo.

    Tendo exercido por muitos anos a advocacia, fui conselheiro Estadual e presidente da Comissão de Direitos Humanos na profícua gestão do advogado Raimundo Marques (1995-2003) na OAB-MA, época da edificação da nova sede da Ordem. Hoje dedicado à SVT Faculdade e ao Centro de Estudos Constitucionais e de Gestão Pública, importantes atividades educacionais e sociopolíticas tenho implementado por meio dessas instituições, desde outubro de 2013.

    São quatro décadas e seis anos vividos intensamente em São Luís desde aquele distante ano de 1975 até os dias de hoje. Vim para passar um ano e já se passaram quarenta e seis… Por certo, alguma coisa isso representou em minha vida… Por certo, alguma coisa isso tem a dizer para mim próprio… Havia caminhos outros a percorrer?  Para o poeta espanhol Antônio Machado não há caminho, pois…

 “Faz-se caminho ao andar. Ao andar se faz caminho/ e ao voltar a vista atrás/ se vê a senda que nunca se voltará a pisar/…”

Mas ao vermos a senda vemos também a bela imagem de São Luís como aquela guardada em poema de BandeiraTribuzzi:

“Vista do mar, a cidade/ parece humilde presépio/ levantado por mãos puras/ e em sua simplicidade/ esconde glórias passadas/ sonha grandezas futuras.”

    Agora digo, para mim mesmo, que se passaram 46 anos e nem me dei conta do tempo…Tenho, porém, o consolo de ler o poema “Conta e Tempo” de Frei Antônio das Chagas, que aconselha:

 

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,

Não gasteis vosso tempo em passatempo.

Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta!

 Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,

Quando o tempo chegar, de prestar conta,

Chorarão, como eu, o não ter tempo…”

    Mas eu não quero chorar o que passou, como dizia Chaplin em sua linda e imortal canção…Quero, sim, festejar o tempo passado e o tempo presente, como faço agora, comungando com todos os que vivem nesta sofrida, mas sempre bela e resistente cidade, e que apesar dos maus tratos urbanísticos que lhe constrangem, segue imponente e impoluta nos seus 409 anos de fundação!

     Viva São Luís! Cidade de bravos, de poetas, escritores e heróis, mas, sobretudo, a cidade do coração!

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SERGIO VICTOR TAMER (70) é diretor-geral da SVT Faculdade; presidente do Centro de Estudos Constitucionais e de Gestão Pública-CECGP; membro da Academial Maranhense de Letras Jurídicas e membro fundador da Academia Maranhense de Cultura Jurídica, Social e Política.

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